A menina de óculos que me atendeu. Hoje ela não estava com o humor tão bom. Tratou-me com uma distância pragmática, fria. Ela, que sempre fora dada a sorrir e saudar os pacientes. Está sempre com os cabelos molhados, como estivesse acabado de sair do chuveiro. Traz no rosto uma armação de plástico, como fosse de brinquedo. Acho bem engraçado. É bonita, e tem as mãos pequenas.
O tratamento graciliano que recebi me constrangeu a leitura. Como ler Oswald de Andrade diante de uma fêmea assim tão cabralina? E durante o ultrassom, dediquei meus olhos à apreciação da terapia, de sua mão pequena a circular o transdutor sobre o meu joelho. Trocamos palavras obrigatórias, que ela não entendera de todo a minha situação ortopédica. Só tomei o livro nas mãos quando a fisioterapeuta foi embora.
Estive ao lado da moça nova que também leva livros pra ler. Nós compartilhamos do mesmo aparelho de eletroterapia. Duas coisas em comum: a leitura e dois pares de eletrodos nos membros inferiores. Cumprimentei-a antes de ir embora, em troca de um sorriso.
* * *
Hoje voltei no táxi do seu João. Gosto de andar com ele, que a corrida sempre fica mais barata, e além disso, ele conversa conosco - eu e minha mãe. Sempre me incomodam os taxistas que não interagem com seus passageiros, protegidos pelo rádio ou pelos óculos escuros - quando não por uma expressão fechada.
Seu João é já bem idoso, entre japonês e paraibano, eloquente e aprazível. Debatemos, ao longo dos R$17,60 registrados no taxímetro, sobre o trânsito, as chuvas recentes, os impostos, o governo. O motorista questionou a cobertura de asfalto sobre os paralelepípedos, observando a negativa contribuição desta medida para as enchentes. "Com uma caneca de água você lava a cozinha toda. Agora, se o chão for de terra batida, não dá". Antes de chegarmos à minha casa, ele ainda reclamou do quilo da batata, taxado abusivamente pelos mercados. "E você acha que o produtor, aquele que planta e que colhe, recebe quanto? Menos que a metade, seu menino!".
Tá tudo errado, seu João.
* * *
Minha mãe aprontou de esquecer uma sacola com meu livro no banco de trás do carro.
Oswald, agora, só amanhã. O taxista, prestativo, já deixou a embalagem na recepção da clínica.
7 de out. de 2009
Assinar:
Postagens (Atom)