Mas eu acordei oswaldiano. Adoro ter que pôr um casaco.
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Fui recebido por um "Bom dia!" surpreendentemente entusiasmado da moça brava. Satisfeito, retribuí na mesma medida. Quando a gente chega cedo, eles sempre nos atendem antes do horário. No entanto, aquele que perde a hora acaba perdendo também a viagem. Antes de me chamar, a moça brava precisou repreender o vigilante do estacionamento. Suspeito que se tratava de uma paquera indevida.
Prometi a ela que hoje seria o fim da linha para as minhas muletas. "Vou dar uma chance pra bengala". Ela foi complacente ao me precaver: "Você está pensando que está bom, já, né? que já pode sair por aí andando...".
A paciência é sempre importante em toda a recuperação. Mas a vontade de se recuperar também é. Nada tem sido pior que passar os dias todos em casa, circulando pelos cômodos por força de obrigação. Olhar o mundo da janela só tem beleza quando é uma opção.
Aquela senhora do primeiro dia, cujos filhos cultivam um mesmo gosto para roupas íntimas, já se encontrava a tagarelar. Tão logo eu pus os olhos sobre as linhas de um parágrafo, veio-me um despudorado aviso: "Acho que você não vai conseguir ler hoje, não, viu?". Era a voz da moça brava, que em seguida, como que rindo, se virou com a cabeça para dona Célia.
Sustentei, por uns dez minutos, a necessária concentração. Mas não evitei desmanchar em risadas quando aqueles cabelos curtos suspiraram, debochados: "Ah, meu deus... é hoje!". Como os presentes todos fossem atentos ouvintes, d. Célia persistia em palestrar conosco, num discurso a favor da inovação nas pesquisas de saúde e tecnologia. Por esta, em absoluto, eu não esperava.
Fui cúmplice da zombaria para vingar o naufrágio da leitura. A senhora, longe de suspeitar, prosseguia sem pausa e sem rigor na exposição de sua tese. Tinha uma prosa enjoativa, agravada por um defeito de fala.
Depois senti remorso por rir da velha. É uma injustiça com quem já enfrentara tantos dias. Além disso, devo a ela os nomes das moças - que eu não fui capaz de perguntar. Fosse um legítimo ficcionista, teria lhes dado até sobrenome, já desde o primeiro dia. E não faltaria tanto a este relato. A fisioterapeuta dos óculos de plástico é Leila. A moça brava é Marina.
Marina. Como eu gosto desse nome. Gosto tanto que, tivesse outro nome a moça brava, ainda sim eu saberia lhe dar este. Marina.
Antes de deixar a clínica, pude rir mais uma vez com Marina - nossos olhos encontrados. "Que foi?" Eu lhe diria estar alegre por saber que ela solteira. Leila é casada; Marina, não. Eu diria, mas não disse.
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Voltamos novamente para casa no táxi do Guarnieri.
As ruas quase vazias, o céu nublado, uma garoa fina. Só assim é que São Paulo vale a pena.