13 de out. de 2009
Nono dia (13/10/09)
Achei que seria difícil levantar-me hoje, acomodado que estava à liberdade de dormir quando quisesse e acordar quando pudesse.
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Hoje tudo aconteceu de forma veloz. Não havia trânsito quando saímos. Mal acomodei-me numa das poltronas da recepção, fui convocado à terapia pela Leila.
Fui levado à mesma maca em que ficara naquele sábado já distante, no terceiro dia. A Leila, não entendi o porquê, se dispôs do lado oposto à minha perna doente. Pode parecer implicância à toa, mas havia condições de operar à direita do leito. Do jeito que ela fez, senti um desconforto tremendo na perda esquerda, disfuncionalmente entreposta - um muro separando fisioterapeuta e joelho.
Em vez de um livro, trouxe comigo um caderno do jornal de domingo, que a gente nunca dá conta de ler num dia só. Após reparar que as leituras não engrenam naquela clínica, as publicações periódicas e os livros de contos serão minhas opções. Nada de romance ou crítica, que não funciona.
Não bastasse a distância imposta por minha fatal perna esquerda, o silêncio que eu mantive até então perante Leila ameaçava se confirmar. Decidi, no entanto, inaugurar um assunto. Perguntei do fim de semana, do descanso do dia santo. Ela se apegou firmemente à conversa. Falou de si, quis saber de mim. Acabou dizendo, num dia, muito mais que dissera Marina desde o dia em que nos vimos pela primeira vez.
Surpreendo-me com as mudanças de comportamento por parte das mulheres toda vez que demonstro algum interesse por elas - ao perguntar de sua vida, ao ouvir o que elas têm a dizer. Por mais singulares que sejam as reações, naturalmente conformes à diversidade de mulheres pelas quais venhamos a nos interessar, elas estão unidas pela notável extensão dos discursos.
Leila versou, conversou, tergiversou. Eu, introvertido, quis saber só de escutar. Falei o mínimo. Demonstrar interesse não é o mesmo que se interessar. Tudo não foi mais que um artifício para poupar-nos, Leila e eu, do silêncio. Sequer mencionarei qualquer coisa do que ela disse, que não importa. Marina me importa, com ela é que me preocupo. Mas só nos vimos de passagem.
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Há dias em que as coisas correm com mais velocidade. Assim foi. Esperando pelo táxi, só pude reparar na camisa branca que Ana usava atrás do balcão. Sóbria, simples e nem por isso menos erótica. Pensei em dizer: "Ana, você está uma delícia nesta camisa". Sorri. Jamais diria algo assim, ali, para a bela e loura senhôura.
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O taxista de hoje era bastante atencioso e de modos corteses. Recebeu-nos fora do carro, abriu-nos as portas do veículo e também desceria para prestar-nos tal gentileza no desembarque. Bastante sofisticado no falar. Eu pouco quis intervir, no entanto, já que minha mãe decidira de antemão reservar os diálogos da ida e da volta para aplicar-me lições de moral.
9 de out. de 2009
Oitavo dia (09/10/09)
8 de out. de 2009
Sétimo dia (08/10/09)
A Ana não estava querendo nos deixar atrasar. E mudou o horário do atendimento para as nove horas. A Ana é recepcionista da clínica, uma loura senhôura, bastante gentil apesar de reclamona. Quando chegamos, prontamente devolveu a minha mãe a sacola com as memórias do Oswald.
Antes de ceder o livro para que eu lesse, minha mãe decidiu folheá-lo, passeando os olhos pelas páginas como faz com as minhas revistas. Parou numa página, leu o título de um prefácio em voz alta, desinteressou-se. "É fininho, você acaba de ler num estantinho". Ela adora se referir às coisas no diminutivo.
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A moça brava me aguardava, como na segunda e na terça. Seu cabelo curto - Chanel - estava indefectível esta manhã. Ela me deixara escolher a maca em que ficaria. Não vendo nisso qualquer vantagem, escolhi a mais próxima com certo desdém. Depois bateu-me o arrependimento.
Comentei do atraso. Ela asseverou, vigorosa: "Eu não iria te atender, viu?". Logo depois, desabrochou numa risada. Olhei bem em seus olhos castanhos - o tempo que a minha timidez pôde suportar. Não sei seu nome, talvez pergunte amanhã. Magrinha, ela.
Percebi qualquer tensão entre ela e a moça dos óculos de plástico, que hoje trazia presos os cabelos sempre molhados. Tivesse que intervir, eu haveria de dar razão à moça brava, qualquer que fosse a contenda. Devo a ela o ajuste mais caprichoso do fluxo de ondas da eletroterapia.
Às vezes penso que fisioterapeutas são como namoradas, que gostamos mais do beijo de uma, e mais dos olhos de outra, e mais do corpo de outra.
Ainda não me esqueci da primeira fisioterapeuta que me atendera. "Primeira vez...", como dizem. E meu joelho ainda padece da orfandade de suas mãos - as mais primorosas. Torço para que ela não volte, que eu conserve esta lembrança idealizada. A presença é sempre inferior.
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Sentou ao meu lado um par de óculos pesadíssimos. Tratam-no por seu Cleto. Homem à moda antiga, tem aquele sotaque paulistano dos primeiros anos do XX. Num dado momento, a moça brava passou por nós e se queixou do silêncio. "Caiu um lenço", arriscaram os óculos - quase sem jeito. A moça ficou sem entender, que o idoso não quis insistir, abanando a cabeça.
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O taxista de hoje assemelhava-se ao Gianfrancesco Guarnieri. Satisfez-me por demais esta lembrança, que eu gostava bastante desse cara.
A minha mãe tem o costume de contar a todo mundo as mesmas histórias, do mesmo jeito, na mesma sequência. Tem hora que isso me enfada por completo.
7 de out. de 2009
Sexto dia (07/10/09)
O tratamento graciliano que recebi me constrangeu a leitura. Como ler Oswald de Andrade diante de uma fêmea assim tão cabralina? E durante o ultrassom, dediquei meus olhos à apreciação da terapia, de sua mão pequena a circular o transdutor sobre o meu joelho. Trocamos palavras obrigatórias, que ela não entendera de todo a minha situação ortopédica. Só tomei o livro nas mãos quando a fisioterapeuta foi embora.
Estive ao lado da moça nova que também leva livros pra ler. Nós compartilhamos do mesmo aparelho de eletroterapia. Duas coisas em comum: a leitura e dois pares de eletrodos nos membros inferiores. Cumprimentei-a antes de ir embora, em troca de um sorriso.
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Hoje voltei no táxi do seu João. Gosto de andar com ele, que a corrida sempre fica mais barata, e além disso, ele conversa conosco - eu e minha mãe. Sempre me incomodam os taxistas que não interagem com seus passageiros, protegidos pelo rádio ou pelos óculos escuros - quando não por uma expressão fechada.
Seu João é já bem idoso, entre japonês e paraibano, eloquente e aprazível. Debatemos, ao longo dos R$17,60 registrados no taxímetro, sobre o trânsito, as chuvas recentes, os impostos, o governo. O motorista questionou a cobertura de asfalto sobre os paralelepípedos, observando a negativa contribuição desta medida para as enchentes. "Com uma caneca de água você lava a cozinha toda. Agora, se o chão for de terra batida, não dá". Antes de chegarmos à minha casa, ele ainda reclamou do quilo da batata, taxado abusivamente pelos mercados. "E você acha que o produtor, aquele que planta e que colhe, recebe quanto? Menos que a metade, seu menino!".
Tá tudo errado, seu João.
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Minha mãe aprontou de esquecer uma sacola com meu livro no banco de trás do carro.
Oswald, agora, só amanhã. O taxista, prestativo, já deixou a embalagem na recepção da clínica.
6 de out. de 2009
Quinto dia (06/10/09)
Depois de milhares de alertas enérgicos sobre a necessidade de levantar e ir tomar banho "agora!", acabei consentindo. Importa é que lutei.
Hora de ir para a fisioterapia. Hoje, vou com 'Roberto Schwarz' e, claro, com a minha vizinha - uma cantora havaiana - que sempre me leva lá.
É mentira, a minha vizinha não é cantora. Nem havaiana. Trabalha na prefeitura, e é um paradigma de solidariedade.
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A moça brava nem parece mais tão brava. Na verdade, desconfio que ela seja bem sisuda com os homens - enquanto homens. Como sou apenas um paciente, fico de fora dessa.
Só ontem que eu fui me ligar que a primavera começou. O 'descontrole glandular da natureza' de que fala LF Veríssimo.
Repelente não adianta porra nenhuma contra siriri, e isso eu descobri da pior maneira possível. Vieram todos para um congresso em meu quarto. Não bastasse ter sido tão quente o dia.
Falei pra ela - pra fisioterapeuta - que não gosto do calor. E começamos a falar sobre o tempo. Sim, é uma merda de assunto. Mas ela estava animada, e correspondeu de maneira admirável. Vai substituir bem a gatinha simpática caso esta não retorne - que hoje ela não foi. É uma boa substituta, sobretudo por também ser gatinha e simpática.
Hoje me senti muito bem durante o tratamento. Estive lendo "Ao vencedor as batatas", do Schwarz. Excelente leitura, ainda que sua prosa seja um pouco tortuosa de vez em quando. (Eu cogitei levar a revista piauí pra ler em vez do Schwarz. Mas ia ser uma merda carregar aquilo com as muletas.)
A eletroterapia, nesta manhã, aproximou-se da sublimação. Foi como um beijo de namorada, aquele que a gente percebe que encaixa perfeitamente.
5 de out. de 2009
Quarto dia (05/10/09)
Hoje o acidente está fazendo um mês.
Ontem vi fotos do carro, de como ficou. Cheguei a me emocionar ao vê-lo - a frente desconfigurada, parecendo Guernica. Eu poderia ter sido parte do quadro, e acho que é isso que apavora a gente, é do horror de constatar que estive por um fio que provém essa catarse.
Eu fora dormir bem tarde ontem. Não bastasse, tive que levantar antes do galo, que a minha vizinha tinha outros compromissos mais cedo.
Estou bastante sonolento, e por isso não vou levar um livro. Não quero pecar por dormir durante a leitura.
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Atravessei o tratamento sem leitura.
Um desafio ao tédio: vencer a austeridade das circunspectas paredes brancas.
Hoje cuidou de mim a mais séria das moças - das senhoritas fisioterapeutas. "Como são belas as bravas", pensei.
Dominado pela soneira, me torno condescendente. Reparei nas delicadas formas da moça, e senti que lhes faltava um adorno. E, atrevido, fiz sua boca se abrir num sorriso.
Igualmente atenciosa, mas me dá pouca ousadia. Prática, me dispensou com presteza.
Ao levantar-me, dei conta do quanto ainda preciso dormir por hoje.
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Tenho certo enjoo dessa costumeira conversa de que fulano "nasceu de novo" depois de quase morrer.
Sequer reajo a tamanho disparate. Às vezes por cordialidade aquiesço, omito a divergência.
Acreditar nesses renascimentos, a meu ver, é prejudicial. Entendo que um evento assim na vida do sujeito permita a instauração de um novo período, determine uma guinada nas "velhas formas do viver". Além disso, nada é recriado e nada retorna ao zero. As cicatrizes são testemunha.
Fugir à morte é apenas uma dádiva do acaso - respiro provisório.
Devemos reconhecer: somos frágeis, pequenos, perecíveis.
A vida é única, breve e implacável; nos leva para a morte.
3 de out. de 2009
Terceiro dia (03/10/09)
Levei de novo o livro do Alfredo Bosi para ler na clínica.
Cheguei cedo demais, antes de abrir. Detesto quando isso acontece.
Atrasar é normal - é pra todo mundo. Mas se antecipar? Não, ninguém merece perdão por isso.
Enquanto aguardava, bati papo com um distinto senhor que estava em tratamento.
Falamos principalmente sobre automóveis.
Surpreendi-me quando ele quis saber da faculdade. Elogiou-me por estudar Letras, e isso jamais acontece.
Hoje o Antonio Candido não vem - certeza. O velho gosta de acordar tarde aos sábados.
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A gatinha simpática também não veio.
A fisioterapeuta do sábado é curiosa. Risonha, meio calada, estabanada e feia. Derrubou minhas muletas três vezes. Esqueceu-se do gelo.
Senti menos constrangimento de ler perante ela do que quando me atende a outra. A gente tem umas coisas...
Pensei em puxar conversa, mas tive preguiça. Acabou não precisando.
Ao meu lado, um senhor exercitava-se. Estava lá por conta do joelho também.
Acusou seus médicos de imprecisão. "Fui em três doutores de clubes de futebol: Ponte Preta, São Paulo e Portuguesa! Os três disseram a mesma coisa".
Acho que não disseram o que ele queria ouvir - coisa que fez um quarto médico, o qual (concordei) "está com a razão": deveriam ter operado os dois joelhos!
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Hoje foi tudo bem rápido, que tinha pouca gente. Mal deu pra ler.
Faz mal não.
2 de out. de 2009
Segundo dia (02/10/09)
Eu já estava desacostumando-me a acordar cedo. A fisioterapia ajuda nisso também.
Saio de casa pouco depois das sete horas. Minha vizinha gentilmente me leva; volto de táxi.
A minha mãe faz questão de me acompanhar. Disse que não precisava, mas não me aborreço. Ela me ajuda - e tem ajudado - bastante.
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Hoje pela manhã, durante a termoterapia, eu lia Alfredo Bosi.
A termoterapia que faço, elas chamam de ultrassom. Passam um gel no meu joelho e sobre ele empregam um aparelho, de maneira circular. Radiação, deve ser.
O livro do Bosi que leio chama-se "Machado de Assis - O enigma do olhar". Não é de hoje que gosto deste crítico, e mais uma vez sua leitura me compraz.
A termoterapia costuma ser bem rápida. A eletroterapia demora mais. Passam o mesmo gel, prendem uns eletrodos, e eles ficam formigando no meu joelho.
Eu me sinto constrangido em permanecer lendo enquanto as fisioterapeutas me atendem. Parece-me algo desrespeitoso perante toda sua atenção.
O ato da leitura é um ato individual. O leitor em atividade rompe com o mundo. Quando as percebo se aproximando (hesito, mas) sempre paro.
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Só tem velhos aqui. Alguns nomes insignes me acompanham. Ao meu lado, por exemplo, Antonio Candido faz alongamentos.
Obviamente não é o Candinho. Mas parece. Aliás, vejo a USP em cada maca.
A Universidade e a Geriatria são consortes.
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Amanhã é sábado. Acho que a senhora doutora fisioterapeuta (vulgo gatinha simpática) não vem.
1 de out. de 2009
Primeiro dia (01/10/09)
Sempre dizem das fisioterapeutas que são muito bonitas. Isso me animou a levantar cedo hoje.
Penso, no entanto, que isso é bobagem. Discurso meio que machista, até. Pensam que é casa de massagem.
Mulher bonita tem na feira, nos supermercados, nos bancos, nas lojas, nos hospitais, nos pontos de ônibus.
Só na universidade é que não tem. Mentira.
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Eu já havia feito fisioterapia uma vez, quando torci o tornozelo em 2004.
Mas é - deve ser - sempre diferente. A começar pelo lugar. Aqui é pequeno, uma clínica particular na zona norte. Pertinho da minha casa.
Há bastante pessoas idosas na recepção aguardando. Não bastasse o castigo do tempo, ainda encaminham elas para cá - pra tortura.
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Chamaram-me antes da hora. Estava preparado para um atraso de uns 15 minutos, como tudo em São Paulo.
Pois vamos, então, que para isso foi que viemos.
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Comecei a fisioterapia. Não doeu nada, mas fiquei numa posição incômoda. A gente fica pouco à vontade nestes lugares.
Uma senhora que estava ao meu lado entremeou a entrevista que a fisioterapeuta fazia comigo. Pôs-se a falar de tragédias; depois, de si mesma.
A senhora contava com satisfação das meias e cuecas de seus quatro filhos, e de como ela as identifica, e as guarda, que são todas iguais.
Logo acabou a sessão. Faço apenas dois exercícios, os quais ainda não sei o nome.
Gostei de papear com a dona. Adoro conversar com os mais velhos. Sinto muita falta, que meus avós já se foram. (Resta-me o avô paterno, mas não nos falamos.)
Acho que amanhã vou trazer algo pra ler. É rápido, mas eu detesto ficar parado olhando pros lados, à toa. Nem sempre dá pra conversar, que as pessoas vão e vem.
É que eu também vi uma moça - a única paciente jovem além de mim - lendo. Talvez isso tenha me instigado. (Quem sabe, até, por inveja.)
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A fisioterapeuta é gatinha e simpática.
Deu muita atenção às minhas narrativas, e riu das minhas piadas. Parece ser ótima profissional.
Excelente começo, my old buddies.