Daqui a cinco dias, completo um mês afastado do cotidiano.
Alguns brincam: "férias extendidas!", "esquenta pra semana do saco cheio", "carnaval fora de época".
Alguns advertem: "quem mandou?", "você ainda mata a sua mãe!", "cria juízo...", "que te sirva de lição!".
A verdade é que fui destacado do mundo que cultivo. E toda separação abrupta é muito dolorosa.
O que mais tem me incomodado é a impotência.
Dependo dos outros para quase tudo - e por causa de um problema que arrumei sozinho.
Não me culpo, mas me aborreço. Somos vencidos facilmente, e cada fração de segundo de nossa fraqueza é simplesmente irreversível.
Por quase um mês, minha casa tem sido apenas a sala. Já consigo ir ao banheiro sozinho, e isso merece champagne.
Talvez no final de semana eu volte para o meu quarto, que essa sala é muito fria, grande demais para dormir sozinho.
Quero muito voltar a andar normalmente - desfrutar de uma simples articulação.
* * *
Falam que é nessas horas que se reconhecem os verdadeiros amigos.
O que me deixa mais feliz é que eu já os reconhecera bem antes de tudo, e apenas os reencontrei neste momento de precisão.
Somente o carinho que recebo a cada visita, mensagem ou telefonema é capaz de aplacar minha angústia.
Das dores, vão cuidando os analgésicos.
* * *
Amanhã acordo cedo, que começa a fisioterapia.