Extremamente pessoal, despretensioso, insignificante.
Seu nome é bobo, não merece especulação ou palavras que o justifiquem.
A vida deste blogue é minha doença; seu conteúdo, minha vingança - ou, talvez, parte da terapia.


13 de out. de 2009

Nono dia (13/10/09)

O feriado prolongado significou um intervalo de três dias no tratamento, que vem demonstrando dia a dia grandes efeitos positivos.

Achei que seria difícil levantar-me hoje, acomodado que estava à liberdade de dormir quando quisesse e acordar quando pudesse.

* * *

Hoje tudo aconteceu de forma veloz. Não havia trânsito quando saímos. Mal acomodei-me numa das poltronas da recepção, fui convocado à terapia pela Leila.

Fui levado à mesma maca em que ficara naquele sábado já distante, no terceiro dia. A Leila, não entendi o porquê, se dispôs do lado oposto à minha perna doente. Pode parecer implicância à toa, mas havia condições de operar à direita do leito. Do jeito que ela fez, senti um desconforto tremendo na perda esquerda, disfuncionalmente entreposta - um muro separando fisioterapeuta e joelho.

Em vez de um livro, trouxe comigo um caderno do jornal de domingo, que a gente nunca dá conta de ler num dia só. Após reparar que as leituras não engrenam naquela clínica, as publicações periódicas e os livros de contos serão minhas opções. Nada de romance ou crítica, que não funciona.

Não bastasse a distância imposta por minha fatal perna esquerda, o silêncio que eu mantive até então perante Leila ameaçava se confirmar. Decidi, no entanto, inaugurar um assunto. Perguntei do fim de semana, do descanso do dia santo. Ela se apegou firmemente à conversa. Falou de si, quis saber de mim. Acabou dizendo, num dia, muito mais que dissera Marina desde o dia em que nos vimos pela primeira vez.

Surpreendo-me com as mudanças de comportamento por parte das mulheres toda vez que demonstro algum interesse por elas - ao perguntar de sua vida, ao ouvir o que elas têm a dizer. Por mais singulares que sejam as reações, naturalmente conformes à diversidade de mulheres pelas quais venhamos a nos interessar, elas estão unidas pela notável extensão dos discursos.

Leila versou, conversou, tergiversou. Eu, introvertido, quis saber só de escutar. Falei o mínimo. Demonstrar interesse não é o mesmo que se interessar. Tudo não foi mais que um artifício para poupar-nos, Leila e eu, do silêncio. Sequer mencionarei qualquer coisa do que ela disse, que não importa. Marina me importa, com ela é que me preocupo. Mas só nos vimos de passagem.

* * *

Há dias em que as coisas correm com mais velocidade. Assim foi. Esperando pelo táxi, só pude reparar na camisa branca que Ana usava atrás do balcão. Sóbria, simples e nem por isso menos erótica. Pensei em dizer: "Ana, você está uma delícia nesta camisa". Sorri. Jamais diria algo assim, ali, para a bela e loura senhôura.

* * *

O taxista de hoje era bastante atencioso e de modos corteses. Recebeu-nos fora do carro, abriu-nos as portas do veículo e também desceria para prestar-nos tal gentileza no desembarque. Bastante sofisticado no falar. Eu pouco quis intervir, no entanto, já que minha mãe decidira de antemão reservar os diálogos da ida e da volta para aplicar-me lições de moral.

9 de out. de 2009

Oitavo dia (09/10/09)

Então "chovia,/ ventava, fazia frio em São Paulo." Foi assim que amanheceu.
Mas eu acordei oswaldiano. Adoro ter que pôr um casaco.

* * *

Fui recebido por um "Bom dia!" surpreendentemente entusiasmado da moça brava. Satisfeito, retribuí na mesma medida. Quando a gente chega cedo, eles sempre nos atendem antes do horário. No entanto, aquele que perde a hora acaba perdendo também a viagem. Antes de me chamar, a moça brava precisou repreender o vigilante do estacionamento. Suspeito que se tratava de uma paquera indevida.

Prometi a ela que hoje seria o fim da linha para as minhas muletas. "Vou dar uma chance pra bengala". Ela foi complacente ao me precaver: "Você está pensando que está bom, já, né? que já pode sair por aí andando...".

A paciência é sempre importante em toda a recuperação. Mas a vontade de se recuperar também é. Nada tem sido pior que passar os dias todos em casa, circulando pelos cômodos por força de obrigação. Olhar o mundo da janela só tem beleza quando é uma opção.

Aquela senhora do primeiro dia, cujos filhos cultivam um mesmo gosto para roupas íntimas, já se encontrava a tagarelar. Tão logo eu pus os olhos sobre as linhas de um parágrafo, veio-me um despudorado aviso: "Acho que você não vai conseguir ler hoje, não, viu?". Era a voz da moça brava, que em seguida, como que rindo, se virou com a cabeça para dona Célia.

Sustentei, por uns dez minutos, a necessária concentração. Mas não evitei desmanchar em risadas quando aqueles cabelos curtos suspiraram, debochados: "Ah, meu deus... é hoje!". Como os presentes todos fossem atentos ouvintes, d. Célia persistia em palestrar conosco, num discurso a favor da inovação nas pesquisas de saúde e tecnologia. Por esta, em absoluto, eu não esperava.

Fui cúmplice da zombaria para vingar o naufrágio da leitura. A senhora, longe de suspeitar, prosseguia sem pausa e sem rigor na exposição de sua tese. Tinha uma prosa enjoativa, agravada por um defeito de fala.

Depois senti remorso por rir da velha. É uma injustiça com quem já enfrentara tantos dias. Além disso, devo a ela os nomes das moças - que eu não fui capaz de perguntar. Fosse um legítimo ficcionista, teria lhes dado até sobrenome, já desde o primeiro dia. E não faltaria tanto a este relato. A fisioterapeuta dos óculos de plástico é Leila. A moça brava é Marina.

Marina. Como eu gosto desse nome. Gosto tanto que, tivesse outro nome a moça brava, ainda sim eu saberia lhe dar este. Marina.

Antes de deixar a clínica, pude rir mais uma vez com Marina - nossos olhos encontrados. "Que foi?" Eu lhe diria estar alegre por saber que ela solteira. Leila é casada; Marina, não. Eu diria, mas não disse.

* * *

Voltamos novamente para casa no táxi do Guarnieri.
As ruas quase vazias, o céu nublado, uma garoa fina. Só assim é que São Paulo vale a pena.