Eu aguardava prontamente pelo chamado da vizinha, era perto das oito horas. Minha mãe, sempre afoita, andava de um lado para o outro. Sugeri que ligássemos comunicando o atraso. Aborrecia-me a ideia de não ir à fisioterapia.
A Ana não estava querendo nos deixar atrasar. E mudou o horário do atendimento para as nove horas. A Ana é recepcionista da clínica, uma loura senhôura, bastante gentil apesar de reclamona. Quando chegamos, prontamente devolveu a minha mãe a sacola com as memórias do Oswald.
Antes de ceder o livro para que eu lesse, minha mãe decidiu folheá-lo, passeando os olhos pelas páginas como faz com as minhas revistas. Parou numa página, leu o título de um prefácio em voz alta, desinteressou-se. "É fininho, você acaba de ler num estantinho". Ela adora se referir às coisas no diminutivo.
* * *
A moça brava me aguardava, como na segunda e na terça. Seu cabelo curto - Chanel - estava indefectível esta manhã. Ela me deixara escolher a maca em que ficaria. Não vendo nisso qualquer vantagem, escolhi a mais próxima com certo desdém. Depois bateu-me o arrependimento.
Comentei do atraso. Ela asseverou, vigorosa: "Eu não iria te atender, viu?". Logo depois, desabrochou numa risada. Olhei bem em seus olhos castanhos - o tempo que a minha timidez pôde suportar. Não sei seu nome, talvez pergunte amanhã. Magrinha, ela.
Percebi qualquer tensão entre ela e a moça dos óculos de plástico, que hoje trazia presos os cabelos sempre molhados. Tivesse que intervir, eu haveria de dar razão à moça brava, qualquer que fosse a contenda. Devo a ela o ajuste mais caprichoso do fluxo de ondas da eletroterapia.
Às vezes penso que fisioterapeutas são como namoradas, que gostamos mais do beijo de uma, e mais dos olhos de outra, e mais do corpo de outra.
Ainda não me esqueci da primeira fisioterapeuta que me atendera. "Primeira vez...", como dizem. E meu joelho ainda padece da orfandade de suas mãos - as mais primorosas. Torço para que ela não volte, que eu conserve esta lembrança idealizada. A presença é sempre inferior.
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Sentou ao meu lado um par de óculos pesadíssimos. Tratam-no por seu Cleto. Homem à moda antiga, tem aquele sotaque paulistano dos primeiros anos do XX. Num dado momento, a moça brava passou por nós e se queixou do silêncio. "Caiu um lenço", arriscaram os óculos - quase sem jeito. A moça ficou sem entender, que o idoso não quis insistir, abanando a cabeça.
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O taxista de hoje assemelhava-se ao Gianfrancesco Guarnieri. Satisfez-me por demais esta lembrança, que eu gostava bastante desse cara.
A minha mãe tem o costume de contar a todo mundo as mesmas histórias, do mesmo jeito, na mesma sequência. Tem hora que isso me enfada por completo.
8 de out. de 2009
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