Hoje o acidente está fazendo um mês.
Ontem vi fotos do carro, de como ficou. Cheguei a me emocionar ao vê-lo - a frente desconfigurada, parecendo Guernica. Eu poderia ter sido parte do quadro, e acho que é isso que apavora a gente, é do horror de constatar que estive por um fio que provém essa catarse.
Eu fora dormir bem tarde ontem. Não bastasse, tive que levantar antes do galo, que a minha vizinha tinha outros compromissos mais cedo.
Estou bastante sonolento, e por isso não vou levar um livro. Não quero pecar por dormir durante a leitura.
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Atravessei o tratamento sem leitura.
Um desafio ao tédio: vencer a austeridade das circunspectas paredes brancas.
Hoje cuidou de mim a mais séria das moças - das senhoritas fisioterapeutas. "Como são belas as bravas", pensei.
Dominado pela soneira, me torno condescendente. Reparei nas delicadas formas da moça, e senti que lhes faltava um adorno. E, atrevido, fiz sua boca se abrir num sorriso.
Igualmente atenciosa, mas me dá pouca ousadia. Prática, me dispensou com presteza.
Ao levantar-me, dei conta do quanto ainda preciso dormir por hoje.
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Tenho certo enjoo dessa costumeira conversa de que fulano "nasceu de novo" depois de quase morrer.
Sequer reajo a tamanho disparate. Às vezes por cordialidade aquiesço, omito a divergência.
Acreditar nesses renascimentos, a meu ver, é prejudicial. Entendo que um evento assim na vida do sujeito permita a instauração de um novo período, determine uma guinada nas "velhas formas do viver". Além disso, nada é recriado e nada retorna ao zero. As cicatrizes são testemunha.
Fugir à morte é apenas uma dádiva do acaso - respiro provisório.
Devemos reconhecer: somos frágeis, pequenos, perecíveis.
A vida é única, breve e implacável; nos leva para a morte.